Algo sobre o que somos...

24 abril 2017
Despertei vagarosamente; e ainda com os olhos fechados continuei deitada na cama com uma tremenda preguiça. Tentei lembrar sobre a noite passada. Sei que algo aconteceu, não era hábito ficar deitada até tarde na cama, mas, custava até a me localizar direito, na verdade não fazia ideia de onde estava. 

A maciez do lençol não era conhecida. Passei a mão levemente no colchão tentando achar alguma prova do acontecimento passado. Não ousava abrir os olhos, procurei os outros sentidos mesmo! Os lençóis ainda quentes me deram a entender que não era apenas o calor do meu próprio corpo que se instalara ali. Um sorriso de canto de boca se fez e me inundei de uma esperança boba, pensando e aguardando seu retorno ao quarto.

Logo me questionei sobre a sua presença, realmente não reconheci o aconchego do quarto. Era para ter me acostumado com a quina da mesa de canto encostando nos meus pés, ou à cortina que me mexia a cada leve brisa que entrava e me arrepiava o braço, ou ainda ao ventilador de teto silencioso, diferente das outras centenas de vezes em que estive aqui. Mesmo assim, despreocupada, espreguicei e tentei expulsar qualquer melancolia que beirava, matinalmente, minha cabeça, desde sua partida. Não eram somente as manhãs que me deixavam de mal humor, mas as manhãs sem você.

O cheirinho de café já invadia o dormitório e me seduzia. Acho que era mais um estímulo a sair dali e lhe encontrar num abraço saudoso. Estiquei a blusa amassada, no corpo, ajeitei os cabelos num coque mal feito e saí descalça, sentindo o chão gelado e úmido. Neste momento me dou conta realmente que não conhecia aquele quarto, nem aquela cama. Já em desespero atravesso a porta única de acesso à cozinha e não vejo você, não vejo ninguém. As xícaras de café, ainda quentinhas, postas cuidadosamente na mesa nem me atiçam o vício.

Ainda sem reconhecer nada do lugar procuro vestígios seus, somente seus. Não penso em mais ninguém. Barulhos no banheiro me fazem bater na porta desesperadamente, procurando alguma explicação. Quem seria? O que seria? O que me faria não estar com você? Apenas abro sem a permissão de quem ali deveria estar. Surge apenas o meu próprio reflexo.  Seguro na borda da pia procurando apoio, sinto os sentidos esvaírem do meu corpo. Sou eu, apenas eu, sem você. 

O chão gelado me recebe num cair descompensado do meu corpo. Sem jeito, com a cabeça no chão, percebo que apenas a minha presença estivera ali. Fico por minutos, eu acho, na mesma posição, esperando reviver qualquer sentimento que ainda tenha aqui dentro. Só me faço levantar quando noto uma caixa na mesinha de centro, na sala. Tinha escrito seu nome. Consegui chegar até lá, com dificuldade, me faltava perna, pulmão, fluxo, coração. Faltava-me eu com você. Dentro, nossas centenas de fotos tiradas nesses sete poucos anos. Aos poucos o sofá foi ficando familiar, as cores das paredes se ajustaram para as que uso em meu apartamento e o tapete se fez igual ao que me deu em viagem ao Nordeste.

Você se foi, percebi. Com você foram a minha identidade, meu sorriso e a cor do meu apartamento. Meus sentidos e minha melancolia matinal, que nos fazia graça ao acordar, tornaram-se permanentes, assim como a sólida negritude das minhas paredes. Se foi não por minha vontade, nem sua, nem... Se foi, me olhe, me acolha, me aguarde.

Entre tantos minutos escolhi o mais especial

22 fevereiro 2017
Já chegava a hora. Eu sentia o clima diferente, sentia dentro de mim sem ter como explicar, mas sabia que era hora. Só enfiei o pé dentro do tênis já surrado, sujo, merecedor de um belo banho, e extremamente confortável e prático; saí em disparada ao portão.

Nem ouvi quando a histeria de minha mãe passou daquela cabeça doida dela e chegou (ou tentou chegar) aos meus ouvidos já dispersos , meus sentidos estavam focados é no horário, no tempo. Ai, portão trancado. Volto dentro de casa para pegar a chave e ela continua a gritar, agora já com as mãos na cintura, secando-as no avental que achava dar-lhe um ar de dona de casa prendada, esperando talvez que eu entendesse a gravidade da situação e parasse para acudi-la. Sem chance mãe, está na hora.

Abro o portão e nem me dou ao trabalho de tirar a chave do miolo e guardá-la no porta chaves. E ainda correr o risco de ficar surda (minha mãe). Já já volto e levo-a ao lugar novamente, espere só um minuto, já está chegando a hora.

Com falta de ar pela correria toda e, claro, ansiedade, sento-me na muretinha já gasta, com tijolos ainda sem acabamento. A perna encosta na mureta e percebo que me arranhei com o cimento seco e mal feito, riscando minha perna que, não me desperta atenção alguma. Só cuspi na mão e passei na perna para apagar o ‘branco’ que o cimento deixou.

Olhava de um lado, olhava para o outro e nada. Tudo como sempre, sem muito movimento, apenas as poucas pessoas que circulavam àquela hora, voltando de um dia cheio de trabalho. Aquele dia estava particularmente seco, me arranhava a garganta. Tossi e acabei espantando o cachorro da vizinha que passava cambaleando de tanta sede naquele momento. Não sei por que ela não tranca ele, uma hora será atropelado. Este foi o único pensamento solto que tive, acho que até aliviei meus ombros que estavam rígidos pela espera ansiosa e demorada. Eu sabia que era hora mas, nada acontecia.

Os olhos a procurar o movimento pelo qual acordei especialmente naquele dia ficavam em vão passando as linhas amarelas da rua que já apagadas tiravam os limites dos poucos carros a trafegar. Ainda procurando alguma listra pintada no asfalto me assustei quando o ônibus freou bruscamente na parada e abriu a porta de forma ainda mais apressada. Vá, vá seu Zé, deixe-me descer que hoje tenho um encontro. Automaticamente meus olhos encheram-se de lágrimas, foi inevitável e ao mesmo tempo em que aquela frase tão boba chegava aos meus ouvidos como uma melodia de Iara a encantar os pescadores desavisados.

Passei o dorso da mão no rosto para secar aquelas bobeiras úmidas, muito envergonhada. Além disso, queria enxergar bem direitinho o gingado que aqueles passos mostravam aos fazer o trajeto até a casa azul com portão branco. Ainda de longe eu contava as passadas dele e, a medida que eu o sentia próximo ia serrando os olhos até fechá-los para que apenas a sensação de sua presença fosse sentida, absolutamente única e especial. Esqueci que não era possível, eu sentia mais que isso... o cheiro do seu perfume se adiantava e me entorpecia antes mesmo dos meus poucos pelos se arrepiarem pela pequena brisa produzida pelo seu movimento ali, bem ali, pertinho. Naquele minuto passou em minha mente tudo o que deixei de lado para estar ali, naquele exato momento em que o frio causa calor suficiente para me escorrer suor gelado e apropriadamente inconveniente.

Abri os olhos quando escutei o bater do portão branco na grade, já enferrujada, da casa azul. Ele passou. Nossa, foi tão rápido! Intenso, como sempre.

Um peso tomou conta do meu peito, abaixei a cabeça e desci a mureta, cortando, desta vez, a perna. Novamente não me distraiu. Pise no cadarço desamarrado, na pressa nem me dei conta do frouxidão que ficou o nó. Como estava sujo!

Atravessei o portão da minha casa, da azul não seria capaz! Não esqueci a chave no miolo, peguei-a e entrei em casa. Ela ainda estava de pé, ainda estava a gritar, desta vez o som da voz dela era estridente, atingiu meus tímpanos e me tirou do sério. O que fazia sentada nesses cinco minutos na rua? Me deixou falando sozinha menina! Balancei a mão apenas para espantá-la de perto; não era falta de respeito, apenas queria meu espaço para curtir o breve momento de felicidade que tive. Continuei meus passos tristes e cheguei em meu quarto. Sem importar muito com a bagunça da cama, me joguei nela como uma criança confiantemente o faz numa piscina de bolinhas, prestes a se afogar numa felicidade infantil.

Só fechei os olhos, exausta por conta daquela intensidade dos minutos recém vividos. Sem nem fechar a porta do quarto, apaguei com o travesseiro a me acolher a cabeça. Sonhei, acordada (ou dormindo mesmo, não sei, ficava fora de mim às vezes), com ele, claro. Amanhã me farei notar. Lavarei o tênis de manhã cedo!

Uma conversa, dia desses

18 janeiro 2017
Olá,

Há tanto que eu gostaria de dividir com você, mas, já percebi que não gosta muito de conversar, ainda mais quando envolve assuntos relacionados ao nosso namoro/casamento/sei lá o que é.

Não insisto mais por não querer lhe chatear ou discutir, mas há tanto a ser dito. Além disso, vejo que minhas opiniões lhe incomodam, desta forma também prefiro mantê-las comigo, e ainda continuo a pensar que há tanto a ser dito... 

E vivido, o mais importante, eu sei! Mas travo com alguma ‘não solução’, alguma pendência que ficou e me consome toda a alegria e vontade de estar com você. Eu pensei que dividíamos muito mais que a cama ou as contas da casa; achei que dividíamos a vida! Sinto, ultimamente que estamos mais individuais. Entendo que não é ruim em sua totalidade, até porque temos nossa individualidade mesmo e é importante a mantermos, mas temos que saber lidar com isso para que não nos afaste muito a ponto de não conseguirmos voltar...

Há tanto a dizer, mais como uma maneira de dividir minhas fraquezas, e dúvidas, e quereres e não quereres... mas, não  consigo. Acho que tenho medo que me julgue, como tem sim feito ultimamente... Devo estar colhendo algo que plantei, eu penso.

Tenho medos a lhe falar, mas não o falo para não sei taxada como fraca, há problemas que eu queria que visse mas tenho medo de ser taxada como negativa, há comportamento alheio que me incomoda mas tenho medo de falar e ser taxada como intolerante, tenho dúvidas a lhe expor mas tenho medo de ser taxada como insegura... Como fazer com que chegue até você e não volte como um peso ou arrependimento por ter dividido?

Então, à noite, ao me deitar, as lágrimas vêm; pequeninas, caladas, só para que saiam do meu peito. Assim, adormeço e outro dia começa; um pouco mais vazia, pelo desabafo mudo e cheia de vontade de estar bem.

Eu começo a entender 'ser feliz' por mim mesma. Na verdade nunca foi confuso isso para que hoje eu ‘entenda’, mas sinto muito por VOCÊ não entender que eu penso ser muito maior a felicidade por nós, a felicidade somada de duas pessoas é potencializada! Você é quem não enxerga que há muito mais que ser feliz sozinho, a ideia de que isso basta já está batida... Abra a cabeça para novos horizontes. Sou completa, sim, sozinha, mas sou maior quando sou ‘nós’.

Aqui fico, já cansei e cansou também, imagino. Boa tarde! A noite chega e esta será diferente, somos nós, novamente!

Deixe-me ser

15 dezembro 2016
Sentada numa poltrona de lugar único, respondia as perguntas de maneira desconfortável. Não só pela obrigação em responder ao demorado e insignificante questionamento, mas porque aquele lugar não me deixava à vontade.

Na verdade não era obrigada a responder, necessariamente; mas a partir do momento em que aceitei a fazer a tal entrevista me comprometi em esclarecer algumas coisas, mesmo que me deixassem entediada... se bem que acho minha vida um tremendo tédio mesmo. Não sei o motivo que leva as pessoas a lerem o que escrevo, não tenho nada a dizer que acrescente... só relato o que vejo, o que sinto, quer coisa mais egoísta que textos meus?!

Enfim, estava ali diante do entrevistador. Confesso que não facilitei, monossilábica! Nem parecia a mesma que desenhava letras em sequencia num papel e montava extensos textos. A de se lidar comigo assim mesmo, como sou. Para não demonstrar toda essa minha simplicidade baixava o olhar, quem sabe assim não passo um ar de mistério, estranheza até, não faz mal, desde que seja algo interessante.

Meu olhar triste gerou a pergunta sobre meu estado de espírito (como eu já imaginava). O que me fez pensar que as pessoas nos taxam por breves momentos de exposição. ‘Não, não estou triste, apenas cansada. Estou cansada’. Logo suspiro como se colocasse para fora algo guardado e que me pesava o peito. Cansada!

Acendi meu pequeno vício, de tempos. Inclusive em minhas próprias mãos estão as marcas de minha inconsequência... Queimadas. Diferente do que pensei, meus dedos têm mais histórias a contar do que minha cabeça consiga imaginar.

Vamos logo com isso, seu moço! Não, não sou daqui, mas, meu coração é! Não, não me vejo importante apesar de me intitularem como uma escritora e tanto. Nem escritora profissional sou, não quero o título, escrevo quando quero, meu compromisso é comigo mesma. E de novo o egoísmo aparece. Mas convenhamos, quem não o é!?  Aliás, escrever quando e como quero é que faz meus textos terem a excelência que tantos dizem. Só escrevo quando estou viva, e há fases em que morro! Aí, morro mesmo.

Sou amadora. E pense na forma mais completa e complexa do termo: amo escrever e escrevo por amor mesmo. Me leiam pensando assim: no sentimento que coloquei nessas linhas.

Pensando assim, que injusto quanto julgamento pela minha escrita. Julgamento ruim! Se não gostou é porque não me entendeu... Sentimentos não são para serem aprovados, julgados... Mas para serem sentidos, vividos. Como o ser humano se completa sentindo apenas a parte boa da vida? Como sei do que gosto se não provo o que não gosto? Que insensatez!

Muitos me taxam de melancólica. Não tenho que explicar mas gosto de o fazer: não sou melancólica. Penso apenas que a tristeza é mais cheia de detalhes, de descrições, de sensações. Ela é mais interessante, assim como o mau humor. Me instiga; de certa forma a melancolia me seduz, como se fosse algo a ser consertado, melhorado. Falar da felicidade é perder tempo, dela não se fala, se aproveita, se vive!

Neste momento meu cigarro acaba, assim como meu pequeno momento de prazer viciante. Desta forma meu olhar volta a emanar meu tédio, suspiro novamente e penso no outro texto que começa a crescer em meu peito. É com essa melancolia que caminho de mãos dadas, e continuo meu a caminhar sem olhar a quem me grita: Clarice!

Be nice! Não é uma sugestão, é uma necessidade

17 novembro 2016
Há situações em nossas vidas que nunca pensamos a respeito, pelo simples fato de não ter relevância; ainda. Coisas bobas, às vezes pequenas, clichês até, me arrisco em dizer, e que em algum momento serão de tamanha importância que não acreditaremos que foram deixadas de lado...

Como exemplo: só saberemos das necessidades básicas de um ser humano quando tivermos consciência de que falta a um de nossos filhos e pode ser falta emocional também. Ou, mais trivial ainda (para não usar clichê novamente), só sentiremos falta de um abraço quando não o tivermos mais.

Há exceções, claro. Pessoas mais esclarecidas, porém, muitos de nós não enxerga que essas pequenas coisas juntas são mais valiosas do que outras que parecem importantes mas são extremamente vazias.

Hoje tenho pessoas queridas distantes. Este foi o start para eu rever minhas diretrizes e notar a vida alheia, que de alheia não tem nada uma vez que vivemos em sociedade e meus filhos compartilham desse modo de vida. Há de se rever mesmo e agora.

Lembro claramente, por exemplo, que se eu recebesse uma ordem dos meus pais e o questionassem o porquê disso eu era tratada como desrespeitosa. Hoje as crianças têm o direito de saber! Ora, sem discutir a maneira como cada um educa o seu, eu quero mostrar é a falta de respeito e hierarquia que está nitidamente dentro de nossas casas.

Passeava no shopping com minha família final de semana passado e ou entrar no elevador vi um bebê sendo empurrado no carrinho (o que nos mostra ser ainda pequeno mesmo) e na mão segurava um tablet! Mais uma vez, cada um entende como quer a educação, o problema é o que isso gerará na sociedade em que eu vivo e que meus filhos viverão. Como mantê-los atentos ao seu redor, até mesmo por questão de segurança física, se estão focados num pequeno aparelho em suas mãos?!? 

Eu lembro que lia ‘A Moreninha’ e, achava o máximo os tratamentos entre as personagens. Respeitoso, polido, até sedutor por tanto cuidado. Hoje a impressão que tenho é que as relações estão tão desvalorizadas que ninguém se importa com a convivência e sim com o status ou o lucro que o contato gera.

Vi ontem uma série de época em que ao cumprimentar a moça o rapaz beijou-lhe a mão. Ela, pasma, disse que ele tinha maneiras arcaicas para um rapaz tão a frente do seu tempo, ele ainda mais surpreso garantiu que a evolução é inevitável, a tecnologia é vantajosa, mas as boas maneiras, o cavalheirismo, a educação e o cuidado sempre serão a maior riqueza humana. O que lhe sustenta o caráter! E não é?!?

Agradecimento hoje é raro, ou um ‘obrigado’. Pegue exemplos diários: o motorista do seu lado quando quer entrar em sua frente toma-lhe o lugar ou lhe faz sinal pedindo permissão? Se alguém derruba algo no chão é ajudado ou ninguém vê (ou se importa)? Parece lugar-comum este tema mas está tão pesado esse comportamento social que chega a ser triste sair na rua e nos depararmos com tanta indiferença.

O pior é que já contagiou tanto as pessoas que, da porta para dentro isso tem acontecido também. Sabe aquela história que cachorro com mais de um dono morre de fome? É bem assim, deixamos a responsabilidade de tudo para o próximo da fila, nos isentamos de certos comportamentos que dizem muito a respeito do nosso caráter. Pense você: se tiver três copos sujos na pia de sua casa, você usa um e o lava. Lavará todos também ou só o seu? Se parou para pensar um segundo que seja já é sinal de que algo está meio errado aí...

Esse jargão de que ‘gentileza gera gentileza’ é verdade, mas esperar o outro começar ou esperar algo em troca é morrer à míngua. Há de se fazer o certo, o gentil, o importante pelo simples fato de ser certo.

Além de sermos agentes dessas gentilezas, devemos saber recebe-las também, até para que elas tenham continuidade e gerem o bem estar que devem proporcionar. Noite dessas saí com meu marido para jantar e estava chovendo, de leve. Ao sairmos do restaurante ele pediu que eu aguardasse que ele pegaria o carro, assim, eu não me molharia... peguei na mão dele e disse que não precisava, era perto. Me arrependi segundos depois, quando ele disse: ah, mas eu queria fazer isso. Não queria que se molhasse. Onde está minha sensibilidade e receptividade aí? Triste não?!? Poderia ter recebido um agrado, um cuidado, e ele ficaria contente em ter me proporcionado isso...

Pensem bem sobre suas maneiras. Comece logo pela manhã. Você responde a todos o ‘bom dia’ que recebe no Whatsapp? Deixa a senhora entrar na sua frente na fila do pão por respeito? Escuta com paciência a história de sua filha que esqueceu de passar o batom para ir ao colégio e o mundo acabou pra ela? Já respondeu o e-mail de aniversário que seu pai mandou há dois meses e não quer que ele pense que não foi importante? Seja gentil e atencioso, não haverá modernidade que tire o brilho disso tudo, ou falta de tempo que justifique nossa desatenção.

Partiu!... responder e-mail do meu pai!

Sem bagunça, por favor

16 setembro 2016
Sentei no banco do carro e, como de costume, liguei o rádio após me arrumar para dirigir. Coloquei o cinto, ajeitei o banco – casa com dois motoristas requer ajustes diários – e aumentei o volume. Especialmente hoje o fiz para espantar os pensamentos sobre a noite passada que permaneciam a me ensurdecer. Quem sabe com as músicas as ideias se calariam e a calmaria me acolheria pelo menos enquanto buscava meu caminho, literalmente.

É claro, não podia ser diferente, que meus pensamentos eram sobre nós, eu e você, que na verdade acho que sou mais eu me preocupando e você apenas fazendo o que bem quer... 

Lembrei que ainda ontem, fiquei sentada nos degraus da varanda, acompanhando o esconder do sol, a entrada das luzes naturais da noite e o esfriar do dia e do meu próprio sentimento. Até que me convenci de que não viria mais ao meu encontro, pelo menos não hoje. Eu já sabia, mas, esperava outro fim para isso. Há algum tempo, acho que já lhe disse inclusive, um amigo me falou que notava em mim uma esperança platônica em relação aos outros, me aconselhou a não o fazer. Quanto mais esperamos mais nos decepcionamos... Achei que eram apenas palavras de um descompromissado, mais um que eu tinha encontrado. Hoje vejo que foi um dos melhores conselhos que recebi e que não sei colocá-lo em prática ainda.

Ainda com o som do carro ligado, me distanciei da realidade e me recordei da noite anterior. Explicações e desculpas para situações previsíveis já não me satisfazem mais, na verdade, penso serem mais sem sentido do que qualquer coisa imaginável! Como se esquecer que tem um compromisso a honrar, alguém a que se merece dar satisfações, ou apenas que se tem um abraço a dar porque simplesmente sente saudades? Não há compreensão. Entendo que não esquece, apenas não o faz.

Você me tirou um pouco da inocência que eu tinha, com você tive que aprender a ser maliciosa. Despertou o instinto de sobrevivência de uma relação amorosa, caso contrário o coração se parte fácil. Me tirou a doçura dos afagos, o cuidado dos carinhos. Pensava que um beijo era uma demonstração de amor e não obrigação matrimonial; achei que a celebrávamos as datas pelo tempo juntos e não que mascarava a ideia comercial de trocar presentes, gostava de ligações ao meio do dia apenas para fizer que lhe sentia falta e me fez sentir como uma boba infantil por este comportamento, também acreditava que a preocupação com seu dia a dia era apenas para saber o que vivera e não uma investigação desconfiada. Percebe que sou mais simples do que pensa? Se eu gostaria de reciprocidade à altura? Mas é claro, quem não o quer? Até nisso me fez acreditar que a egoísta era eu por fazer e querer de volta. Mas só quero de volta o que você mesmo se propôs a dar: divisão de prazeres da vida, momentos de felicidade, cuidado genuíno e amor leve.

Parei, cheguei onde queria. Desliguei o carro e o som se fez mudo, assim como meus pensamentos. É aqui que desce, que lhe deixo, que nos despedimos. Percebe que é você quem vai... sempre! Na volta, sou eu quem espero. Já tentou ficar na expectativa da chegada? Tente, é uma mistura de euforia com medo. Requer coragem. Aí falamos de mim, corajosa sou eu! Por deixar entrar, fazer uma bagunça tremenda e ainda permanecer ali. Acho que deixo por saber que tenho o poder de reajustar as coisas. Acho que está na hora da faxina, afinal, hoje é sexta. Sábado é dia de sair e domingo descansar. Segunda chega com uma expectativa  e tudo (de) novo! 

Meu pai!

15 agosto 2016
Não há nada mais sutil que apenas a lembrança de algo, alguém ou situação. Pode ser até de forma efêmera, mas, nos toca de tal forma, inexplicavelmente profundo. Acho que este meu presente é assim...

Nesta data, mais do que em dias comuns, penso no senhor como meu pai. Não apenas a representação de alguma autoridade ou hierarquicamente superior a mim, acho que já percebeu pelas várias apresentações de emoção que és muito, muito mais.

É exemplo, alguém em que me espelho muito, compartilho as situações mais importantes, que requerem atenção, conselho ou mesmo aprovação. Nossa, isso é o que mais almejo, e bem sabe: sua aprovação. E não apenas por existir e fazer de forma correta, aguardo sua concordância de que estou fazendo tudo e qualquer coisa com maestria. Maestria esta que me ensinou.

E sabe que são pelos pequenos aprendizados que mais o reconheço como homem em sua totalidade. Homem que ensinou aos filhos que o lixo que produzimos é nossa responsabilidade: nada de jogá-lo ao léu. Ensinou-nos que a formação é importante, mas, a busca por ela é mais eficaz: o hábito da leitura está gravado em mim. Mostrou que o trabalho é primordial, mas, feito de forma correta caso contrário não há mérito. Mostrou que falar firme não é gritar e impõe mais respeito do que qualquer outra ação, que o olhar diz mais do que palavras e ensinam tanto quanto. Que se quisermos algo, somos nós é quem temos que correr atrás, ninguém o fará por nós.

Nos fez experimentar que a distância dói e traz arrependimentos muitos; a ida de vocês nos ensina todos os dias que a saudade não é apenas uma palavra da língua portuguesa que em outros idiomas é difícil traduzir, é um conjunto de sentimentos, sensações, percepções que juntos, sim, são difíceis de explicar.

Sua herança para o mundo (que seja o nosso mundo individual), pai, vai além dos ensinamentos que deixou aos filhos e que são transmitidos aos netos. O alcance do seu exemplo é maior do que pensa. João Abranches é mais grandioso do que um dia planejou ser. E não digo isso englobando apenas sua labuta dos anos passados, mas, pelo que faz hoje como ainda trabalhador, como pai, homem de bem e exemplo de perseverança.

Meu presente, pai, são lenços... Lenços que, para mim, significam sua construção. A construção de sua vida, da sua vida conjugal, da sua vida como pai e, da minha hoje. Eles lhe secaram o suor do trabalho que nos possibilitou a vida e a formação, eles secaram suas lágrimas de alegrias e tristezas que, ambas, nos fortificaram; eles representam a formalidade que um dia teve e a simplicidade que hoje escolheu, de forma consciente e certeira. Lenços, pai, apenas eles... que em dias quentes o vi tirar do bolso e secar o bigode bem aparado. Os acho mesmo bem representativos, me trazem lembranças únicas... Continue com eles!

Sense

19 julho 2016
Estava tão acostumada com a monotonia dos amores normais que me surpreendi quando notei que as sensações tinham se expandido imensuravelmente.

Eu, que só tinha delírios a oferecer, passei a ter e transbordar uma completude essencial para meu novo ‘eu’, como se naturalmente construísse uma personalidade nova, mas interligada necessariamente a você. Sim, me percebi através de você.

Sensorial. Como as sensações estavam confusas. De uma maneira muito boa, claro. Conseguia sentir em meus lábios o sabor suave do seu cheiro, enxergava nitidamente a maciez da sua pele como uma aura tocável. Se me distraio, volto à orbita ao escutar a sua melancolia, sem ao menos dizer nada, me pedindo socorro, mudo.

Foi tão gradativo que nem percebi que acontecia. Se eu falar que foi de forma mágica vai dizer que é clichê? Mas não me perdoaria se não descrevesse assim: magicamente belo, encontro de personalidades pertencentes....

Eu nem relutava mais, deixava o som da sua inquietude me levar, suas notas agudas me inebriavam os sentidos. Tocava seu desejo com tanta propriedade que parecia materializar em meus braços e abraços e apertos e, finalmente, aconchego.


E fui... levada por sentidos só agora descobertos. Só deixei para trás banalidades e segui meu mais novo caminho, sem a certeza de estar certa, apenas fui cheia de entusiasmo colorido. Catei minha alma ingênua e cândida e parti para este seu ser!

Precisava escrever

15 junho 2016
Após tanto tempo sem conseguir expressar meus sentimentos, sem buscar uma fuga para minhas lutas diárias, me convenci de que precisava escrever. E não é apenas uma sequencia de palavras que até podem ter coesão, ou fazer algum sentido mesmo que desconexo, ou ainda dizer algo a alguém. Precisava ter sentido para mim, mostrar que ainda vivo, que tenho dentro de mim uma vontade de troca que grita e que precisa quebrar este silêncio que chegou e não quis mais partir.

É inevitável umas férias de nós mesmos. Eu acredito que cada um tem seus momentos de meditação. O meu se prolongou e fez uma estadia teimosa. Pensando bem, este longo tempo afastada das palavras (e aqui confesso que não só da escrita como da leitura, um dos meus maiores amores e orgulhos) me fez enxergar a importância que elas têm e o efeito positivo da minha prática.

Eu esqueci-me que pelo prazer de escrever eu consigo parar para me entender e escrever sobre isso; que observo melhor o que acontece ao meu redor, como se dão as relações, os sentimentos... são eles que descrevo e escrevo sempre.

Há um motivo muito importante que levei em conta ao querer me formar em Jornalismo, e até dele me afastei, apaguei-o momentaneamente e senti falta. A grandeza que me vejo como escritora me fez falta. A insegurança em relação ao que escrevo tomou conta e me impediu de voltar... não à veracidade, mas ao impacto, ao sucesso do meu objetivo.

Nada complexo só cômodo. Na verdade, o comodismo nos torna pequenos, medíocres e ignorantes. Posso arrumar desculpas, descrever meus motivos que, entre eles está a falta de tempo, mas até onde isso é concreto?

Há de se dar um basta nessas mentiras e começar a enfrentar as verdades de forma mais corajosa. Não sou pequena, nem mereço nada que não seja especial... Assim o sou e assim serão meus dizeres... Continuando agora, e seu eu quiser, sem mais longas pausas.


Azuis

Eu tinha prometido dar a ela um isqueiro azul. Para combinar com o cinto cheio de brilhos que ela usou naquele mesmo dia, dia da promessa. Entre conversas gratuitas e descontraídas fazemos promessas que, facilmente, se desfazem sozinhas com o tempo… como folha que a brisa leva sem muito esforço.
Mas esta eu queria manter. Era tão simples, um mimo apenas, para atender a um capricho. Um isqueiro azul! E ela nem fumava… Ver o contraste da chama com a tonalidade mais clara do anil a distraíam; distanciavam do mundo que ela mesma já não entendia como seu. Era natural dela e eu entendo, gosto de vê-la apreciando o que é dela; e somente dela.
Não era aleatoriamente que usava o belo cinto. Escolhera por algum motivo… o azul que tornava o objeto tão especial também tinha o intuito de acalmá-la… Mas não via isso como vantagem… Nos momentos de maior adrenalina era quando eu mais gostava de observá-la. A palpitação no peito e a loucura, que transparecia em seus olhos, me tocavam de forma tão profunda que vez ou outra a provocava, justamente para ver esta exata reação!
As provocações eram pequenas, e tantas. Uma contradição gratuita já bastava para fazer com que as bochechas rosadas se avermelhassem rubras. Negativa para que eu trocasse as meias – não combinavam com a camisa dela, ou outra negativa para que eu deixasse de falar a palavra ‘umbigo’ – ela não gostava dessa palavra, a enojava; isso a deixavam brava. E eu gostava. Nossa, como eu gostava. Tudo isso me fazia ver o quanto ela dependia de mim para seus sorrisos saírem mais fáceis dos lábios. Me provava que por pouca coisa conseguia fazê-la sentir preenchida de pequenas felicidades. E assim eu sabia que eu a completaria com esses pequenos detalhes.
Não me importava em fazer esses caprichos, meu prêmio era tão valioso; o brilho em seu olhar me enfeitiçava e, quando dava por mim, já tinha excluído vários verbetes do meu dicionário pessoal e minhas meias não eram mais coloridas (mais fáceis de combinar).
Definitivamente eu lhe daria o isqueiro azul, assim como prometi. Seria uma data importante a se marcar no calendário, neste dia eu a veria diferente, com o brilho nos olhos como eu gostava! Depois deste, hei de providenciar a presilha de cabelos em forma de joaninha, o lápis com borrachinha na ponta na cor verde limão e a buzina para a bicicleta que ela não tinha… Há, hei de providenciar!